A Cigana (Opisthocomus hoazin) é uma ave notável, adaptada à vida nas áreas úmidas e alagadas da Amazônia.  Tem um porte semelhante a um galo, cabeça azul e olhos bem vermelhos, e sua cabeça é adornada por uma crista de plumas que lhe confere um aspecto punk.  Essas características, somadas a um vôo desengonçado e uma voz muito rouca, lhe dão uma aparência bastante primitiva, que nos faz lembrar o famoso fóssil jurássico Archaeopteryx.  Aumentando ainda mais essa semelhança, os filhotes de ciganas nascem com garras em suas asas, e as usam desde cedo para se fixar à vegetação.  Em termos evolutivos, a cigana é a única ave cuja origem está diretamente associada ao desenvolvimento da bacia Amazônica*. 


As ciganas vivem em grandes colônias nas águas interiores do Parque Estadual do Cantão, onde têm um importante papel ecológico, transformando a celulose da vegetação em nutrientes acessíveis ao ambiente aquático.  As ciganas estão entre as pouquíssimas aves que conseguem sobreviver apenas de folhas.  Em geral, folhas tem baixo valor nutritivo, muitos taninos e outros componentes que tornam difícil sua digestão.  A fim de obter nutrição suficiente das folhas, a cigana desenvolveu um papo enorme, tão desproporcionalmente grande que seu osso esterno (que sustenta a estrutura das asas) e seus músculos de voo tem tamanho reduzido para dar espaço ao papo.  Esse fato, juntamente com o peso do papo quando cheio de folhas, explica porque a cigana tem um voo tão ineficiente. O processo de digestão da folhagem dentro do papo leva cerca de 48 horas, e é possível graças a ação de bactérias que ajudam a digerir os taninos e soltar os nutrientes.  No Cantão, as ciganas se alimentam das folhas novas que crescem logo acima do nível da água, da vegetação flutuante e da relva que nasce na beira dos rios.  Nessa ultima, elas descem de seus galhos e pastam no chão, como gansos.  Colônias de até cem aves ocorrem no parque, próximas umas das outras.


Em Janeiro, à medida que sobem as águas, as ciganas migram para as áreas úmidas do interior do parque, em especial para as curvas e margens dos lagos.  Ali, nos galhos da vegetação, constroem seus ninhos com gravetos, logo acima do nível da água, a salvo dos predadores terrestres.   Os ovos  - dois em geral - eclodem no pico da cheia, entre Março e Abril.  Logo que nascem, os filhotes usam suas garras para escalar os galhos nas proximidades.  Se algum predador aparece nessa hora, eles permanecem imóveis em meio a vegetação, perto do ninho vazio, enquanto os adultos voam e gritam para atrair a atenção do invasor.


Passados mais alguns dias, os filhotes já são grandes demais para não serem notados. Nessa hora, recorrem a outro fabuloso recurso de fuga:  na proximidade de um predador, os filhotes se jogam na água e afundam alguns metros.  Quando o perigo se vai, tornam a escalar os galhos, usando suas garrinhas.  Embora não retornem ao ninho, logo são descobertos pelos adultos que os criam em meio a vegetação.











* A maioria das familias de aves tropicais surgiu quando a America do Sul se tornou uma ilha, embora nem uma delas era de aves aquáticas ou sub-aquáticas.

 

                     Parque Estadual do Cantão, Março  2011

                   CIGANAS

" O mais notável produto da evolução das aves no maior sistema fluvial do mundo, a Amazonia e o Orinoco” 

                                                                                                                                                        - Helmut Sick.

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